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Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente.

[Clarice Lispector]

Feliz dia dos namorados atrasado a todos os casais que realmente se amam, se completam, se respeitam, se gostam, de verdade e intensamente.

das palavras.

PALAVRAS
quando quer matar

uma palavra

joga no papel
é palavra livro
se ela pede vida

fala sussurra grita

oferece carinho
é palavra livre
brilho no olho

peteca bola

de gude arrepio

Ramon Mello

chuva que pegou de surpresa, cabelos ao vento,  poças de água. casacos empoeirados para fora do armário.  corrida para não ser molhada agora é o caminho mais viável. embaixo do meu guarda-chuva vermelho, é meu único companheiro, fiel, até que a chuva, chuvisco, trate de dar uma trégua, sigo minha rota. me protege.  neste trajeto, o guarda-chuva vermelho é meu motivo de alegria.

8 de Dezembro de 1995. Jean-Dominique Bauby, jornalista renomado da revista francesa “Elle”, entra num coma profundo, vítima de um acidente vascular brutal. Ao voltar a consciência, percebe que todas as funções motoras do corpo estão imóveis, sofrendo da Síndrome de ‘locked-in’. Neste corpo inerte, apenas o olho esquerdo é ativo e torna-se seu instrumento de comunicação com mundo, com a vida, com as pessoas ao redor.

É assim nos primeiros trinta minutos do filme “O escafandro e a borboleta”, em que a câmera já denota como  será o desenrolar da trama:  um único olho que a tudo vê, sente e reflete. Jean-Do, personagem principal,  como é chamado pelos amigos, apenas o corpo está imobilizado, preso à síndrome, mas a memória e imaginação permancenem latentes e vivos dentro dele. E é onde ele se refugia, procura consolo e acalento para seu drama pessoal, embora use o humor nas suas reflexões.

Desta forma, preso ao seu ‘escafandro”, metáfora usada para fazer alusão ao seu corpo, usa a pálpebra, um simples piscar de olhos para expressar seus sentimentos. O sistema de citar o alfabeto – as letras mais conhecidas do idioma francês –  ele dita as letras e produz o romance que leva o título ao filme. O trunfo do filme é a utilização dos códigos de linguagens, uma adaptação do alfabeto que ja existe, mas que pelo contexto, torna-se uma nova linguagem para ele, uma nova maneira de expressar, de falar com o mundo, permeado por gestos, no caso dele, o  piscar de olhos.

Ora, agora, Jean-Do, está acamado, em estado vegetativo irreversível, a sua forma de comunicar ganhou outros contornos, devido a sua saúde. Ele foi golpeado pelo destino e de repente, sua maneira convencional, digamos assim, de comunicar-se, seja através da escrita – já que ele pretendia reescrever uma nova versão do Conde de Monte Cristo,  foi dilacerada, amputada de forma subitamente, sem poder falar, se expressar, só ouvir – daí o uso de outra metáfora quando ele compara o seu ouvido com o da borboleta, resultando na origem do filme homônimo ao livro “O escafandro e a borboleta”. A forma como Jean-Do lê, vê e interpreta o mundo ao seu redor é surpreendente e não menos importante quanto ao ato de comunicar-se.

Dentro do processo de comunicação, o homem sempre buscou formas de expressar, desde as formas mais primitivas nos tempos das cavernas através de  gestos, gritos, rugidos, para várias finalidades. Forma singular de transmissão da informação através de códigos icônicos, o  piscar de olhos então para Jean-Do,  na vedade, é  o protaginosta principal do filme, e é através de dele, que nos leva a refletir sobre a capacidade de lidar com os próprios percalços, desafios impostos por razões não-entendidas, e sobretudo, a capacidade de transformar, mexer, adaptar a linguagem para diversas finalidades, de acordo com a conjuntura cultural, social e emocional. Neste sentido, a coadjuvante poderia ser a linguagem, onde é claramente utilizada em todo o filme, inclusive em alguns momentos à exaustão, mas com a finalidade para servir de aporte comunicacional para Jean-Do. Enfim, este é um filme que não acaba quando terminamos de assisti-lo.

Enquanto a maioria dos blogs e sites escrevem sobre a páscoa e ovos de chocolate, eu escrevo sobre o Renato Russo. era uma pessoa que eu amava. não só as músicas que comecei a escutar ao 11 anos por influência do meu irmão mais velho, mas pela pessoa incrível que foi em vida. Quando entrei em jornalismo, e ele já tinha falecido, costumava dizer que era uma pessoa que gostaria de entrevistar.

escutar as músicas da legião urbana era mais que decorar o hit que tocava nas rádios ou contabilizar mais uma banda nova surgida na década de 1980.

era ouvir o que você queria ouvir, em palavras sinceras, por vezes controvérsias, paradoxas, mas acima de tudo, verdadeiras e reflexivas. era um mergulho no eu intimista que nos leva, musicalmente, a uma auto-reflexão, auto-crítica das coisas, das pessoas, do mundo.

e alegro-me em saber que a obra da legião e do renato russo não caiu no ostracismo. Acaba de ser lançado Como se não houvesse amanhã, organizado por Henrique Rodrigues, um livro de contos com as músicas da legião. genial idéia de unir música e literatura e legião urbana.

difícil agora apontar qual música da banda era a melhor. é uma missão impossível para qualquer fã da banda.

Mas registro aqui Sereníssima, que revala um pouco do meu espírito hoje.

ser.

Sou uma página da web em construção.

um livro que ainda não li. que não escrevi.

a árvore que não plantei.

os sonhos [não] sonhados.

caminhos [não] trilhados.

a metade da laranja. sempre adiante.

aquela velha opinião formada sobre tudo.

complexa. intensa. verdadeira.

versinhos desconexos,

soltos.

só.

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[porque às vezes é prazeroso tentar se definir, nem que seja por linhas tortas, caminhos espinhosos, e mesmo tendo a consciência de que mudar para melhor, faz a diferença]

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